A sobrevivência que depende da sorte

A travesti Dandara dos Santos, 42 anos, foi agredida e assassinada a tiros. O crime ocorreu em fevereiro  no cidade Trairi em Fortaleza. A vítima foi espancada com paus e pedras, um dos agressores continua foragido e dois foram presos, sendo um deles menor de idade. As agressões foram gravadas e circulam nas redes sociais.

 

“A vítima não tinha passagem pela Polícia, não tinha antecedente, era querida na comunidade. O que acontece é um atordoamento. Uma pessoa chega e diz ‘pega ladrão’. As pessoas começam a correr, entram no tumulto e começam a agredir a vítima”  

 

A pessoa suspeita de pegar fora ladrão segue foragida. De acordo com Arlete, os suspeitos prestaram depoimento afirmando que Dandara havia cometido roubos no bairro, conforme a delegada a informação é falsa e foi usada para incitar a violência e justificar o crime de cunho transfóbico.

Ilustração feita pela artista plástica Lidiane Soares em homenagem a Dandara dos Santos.

A sociedade que me sustenta me mata

Dandara, Myrella, Camily, Vitória , esses são alguns dos nomes das 57 travestis e mulheres trans assassinadas neste ano. O Brasil é o país onde mais se mata pessoas transgênero. A expectativa de vida das travestis é de 34 anos, os crimes cometidos contra elas são caracterizados como transfobia.

Anyky Lima fugiu desses números e conseguiu, segundo ela por sorte, chegar aos 62 anos, Anyky é militante dos direitos das Travestis e vice presidente do Cellos BH há 7 anos, entrou a convite do Presidente Carlos Magno, ‘ Conheci o Cellos depois que a polícia invadiu minha casa atrás de armas e drogas, como eles invadem a casa de qualquer travesti,eles não acharam nada, mas eu achei o Cellos e assim consegui ajudar as travestis, mulheres e homens trans” conta Anyky.

Anyky Lima – Vice presidente do Cellos BH

Nascida no Rio, Anyky viveu nas ruas e em alguns prostíbulos depois de ter sido expulsa de casa, como a maioria das travestis encontrou seu sustento na prostituição, passou por várias cidades, e veio parar em Belo Horizonte, onde se instalou e conseguiu se sustentar com os programas que fez até completar 52 anos, hoje vive dos quartos que aluga para outras travestis e tenta na justiça o direito a aposentadoria.  O que também traz problemas, as meninas que moram com Anyky são garotas de programa, mas não podem atender em casa, “aqui é uma casa de família, mas mesmo assim algumas pessoas não entendem, me taxam de cafetina, e às vezes algum vagabundo vem tentar bater nas meninas, mas isso eu tiro de letra e eles sempre vão embora”.

Questionada sobre sua vida como prostituta Anyky revela :  ‘’ Eu não posso jogar pedra no que me sustentou a vida inteira, mal ou bem foi a prostituição que me permitiu chegar até aqui, e nessa vida eu conheci o amor, os carros de luxos, homens bons, e todos os problemas que essa vida traz. Por que a mesma sociedade que me sustenta me mata, a maioria dos meus clientes eram homens casados, ou os que tinham tara em travestis, na minha época eles entendiam a travesti como uma mulher, hoje eles vestem calcinha, tanto que depois que eu envelheci eu andava com um dildo na bolsa. Hoje eu não faço mais programa, mas vou ser prostituta a vida inteira”

Brenda Prado mora no Carlos Prates e recebe em sua casa meninas que foram expulsas, muitas delas são garotas de programa, de acordo com Brenda, essa é a profissão que a sociedade nos permite exercer, “ as pessoas falam de força de vontade, mas é difícil conseguir fazer outra coisa, quando nem a família você tem,  a travesti vale o que ela tem bolso” confessa.

Brenda Prado

Assim como Anyky, Brenda foi expulsa de casa, e como a maioria das mulheres trans se sustentou com a prostituição, mas hoje, vive em uma casa própria é casada e tem 4 cachorros. Brenda é também uma exceção, com 30 anos, conseguiu atingir quase tudo que queria, ainda falta uma lista imensa de desejos, o principal deles é o respeito com as travestis e mulheres trans. “Eu recebo essas meninas na minha casa, porque sei o que elas passaram , eu fiz o mesmo caminho, então eu posso ajudar, muitas delas colocam Prado no nome, elas fazem isso porque eu dou conselhos e sou como uma mãe pra elas, minha vontade é que elas permaneçam vivas, todas as cinco que estão aqui comigo, já faz mais de 5 anos.

Brenda se nomeia como mulher trans, Anyky como travesti, segundo as duas a diferença é somente o nome, independente do nome as duas são mulheres. Brenda acredita que a palavra travesti carrega uma carga que não permite a identificação dela como mulher já Anyky acha que travesti é um nome de luta.

Só o preconceito me incomoda

Anyky confessa que hoje somente a falta de respeito e oportunidades para as travestis tiram seu sono, ela e  Brenda conseguiram sobreviver, hoje as duas lutam para garantir que outras mulheres também consigam. Como descreve Anyky, minha luta é simples, eu quero que deixem de matar as travestis.

Mirela de Carlos, foi assassinada em BH em fevereiro, o Cellos BH organizou uma passeata para que medidas fossem tomadas. A investigação sobre a morte de Mirella, está na fase inicial, como relata a delegada responsável pelas investigações Adriana Rosa, ‘“Esse caso é complexo, estamos ouvindo testemunhas e interrogando suspeitos.” Porém para Brenda, que era amiga de Mirela, a polícia não trata as travestis com prioridade, ela e Anyky concordam que existe má vontade por parte da polícia militar e civil. O advogado Thiago Coacci endossa essa fala quando afirma que não existem números oficiais sobre crimes cometidos com esse público e que a polícia civil só recentemente incluí no banco de ocorrências crimes de cunho transfóbico, segunda a assessoria de imprensa da Polícia Civil de Minas, essa inclusão recente não permite que esses números sejam catalogados. Thiago conta também que algumas travestis nem chegam a registrar ocorrência por medo da polícia, que na maioria das vezes não as leva a sério, ou as fazem passar por constrangimento quando se recusam a usar o nome social.

Defunto não tem dono, é o que diz Anyky quando perguntada sobre os número de mortes de travestis no país. A rede trans ,é o órgão de referência quando o assunto são os crimes sofridos por homens e mulheres trans. Para Anyky a luta pelo direito desse público ainda caminha devagar, segundo ela a separação que existe entre as letras da sigla LGBTQI ainda é um problema “ Nós não somos letrinhas, somos pessoas e deveríamos lutar todos juntos”

Serviço Sem informações.